de natal

"Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte "

poetinha

sábado, 24 de junho de 2017

o invisível

"- Qual o nome do seu pai?
- Eu sei lá ... (riso nervoso)
- E o teu endereço qual é?
- Pera, eu acho que tem anotado.
- Você tem número de contato?
- Tem aqui em algum papel, pera.
- Qual a sua data de nascimento?
- Eita, eu não sei não.
- Tu não sabe quando faz aniversário?
- Eu nunca nem comemorei isso ... (riso nervoso)."
Assustou-se quando perguntei o que ele gosta de fazer e quando esclareci que ali ele ia ser um adolescente normal, que não ia ser diminuído e que ninguém ia saber a motivação dele estar ali ... conseguiu sorrir.
Foi embora. Apenas mais "de menor", negro, sem pai, que cumpre medidas socioeducativas.
Foi embora. Mas ficou dentro de mim. O invisível. Aquela família que ninguém vê. Que não sabe ler, que não sabe dizer onde mora, que não comemora e talvez nem saiba da própria existência.
Olho pra assistente social e pergunto:
- Como se cobra tanta civilidade e humanidade de alguém que nem se reconhece e é reconhecido como gente?
invisíveis.
E a gente já passou por eles, só não olhou ...


quinta-feira, 8 de junho de 2017

septimana

"É só na sexualidade que o milionésimo de dessemelhança humano aparece como uma coisa preciosa, pois não é acessível em público e é preciso conquistá-lo. A sexualidade prossegue sendo ainda o cofre de prata em que se esconde o mistério do eu. Não era, portanto, apenas o desejo do prazer (este surgia como prêmio), mas o desejo de se apoderar do mundo (de abrir um corpo mostrado ao outro, como com um bisturi) que o levava a conquista." Kundera - Insustentável Leveza do Ser.


        Saiu com um moço, em uma segunda-feira aleatória. Duas horas de um papo cheio de confidências ainda mais aleatórias. Ficou se perguntando porque esse homem aparentemente tão grande, estava ali na sua frente contando tantas fraquezas, que pareciam tão doídas. Logo se assustou. Gostou. Sempre avaliou a exposição de si mesmo como algo bonito. Sensual. E, a partir dali, já o viu nu.

Beijaram-se depois de duas horas de conversa. Ela já acreditava que não iriam, que as coisas não iam sair daquele ponto. Mas saiu. E entrou. E deu voltas. Sentiu já um bom saudosismo antecipado, que sempre surge fomentado pela elaboração de boas memórias: quando ele a beijou a primeira vez e sem pudor colocou o dedo em sua boca já sugerindo o que queria para aquela noite.
"Taurinos são um negócio que acabam comigo"- pensou. E já no bar começaram a transar. Aproveitando a falta de pessoas em um bar aleatório em uma segunda-feira, começaram ali. Entrou no banheiro, ele atrás. Não fizeram tanto, apenas o sentir do corpo todo e por inteiro os fazia gemer e pulsar. E pulsava, latejava em cada lambida carregada de desejo. Tesão. "Caralho, esse homem tá me desmontando toda" - ainda conseguia pensar. Mentira, não chegava nem a pensar. Apenas sentia o toque daquele desconhecido estrangeiro, forasteiro, maldito ...
A cada toque um alto gemido. Sentia-se emponderada de um corpo que desconhecia, mas que a obedecia. O pulsar de um tesão que surgiu do nada, que trouxe tudo, que nada perguntou ... mas que se instalou como um maldito posseiro. Assustados com a chuva, o vento e as pessoas. Saíram do banheiro. Molhados de chuva, fluídos e vontade. Sentaram-se obstinados à voltar pra casa.
- São onze horas da noite de uma segunda, preciso ir pra casa, trabalho amanhã cedo, meus pais já me ligaram quatro vezes ... - disse isso tudo ainda assustada pelo o que aconteceu.
Bêbados às onze da noite em uma segunda-feira, sem destino e guiados por uma mão. A outra a tocava, a masturbava, quase que lhe gozava ... chegaram à casa com ela quase gozando.
- Eu prometo te deixar em casa ainda hoje.
"Que porra tem nesse homem que eu obedeço ele? Foda-se o amanhã, hoje eu só quero que ele esteja dentro de mim."- consciente da confusão que aquilo causaria, apenas foi.
- Eu só quero que tu goze na minha boca. Só isso, depois tu vai embora.

Terça-feira (08:00)
- Camilla, ontem eu transei com um homem desconhecido que eu não faço ideia nem de qual seja o mapa astral dele. Eu nunca tinha feito isso na vida. Eu só sei que pra onde ele quisesse me levar, eu iria. E o caralho é que eu não consigo parar de pensar nesse homem. Que porra é essa, cara. Tira esse demônio da minha cabeça, por favor.

Quinta (16:20)
- Júlia, ele não fala comigo. E isso é normal. Mas o odioso é que eu me importo. Eu tenho estado com tanta gente, tenho cuidado em não me importar com ninguém. E esse taurino do demônio sumiu. Sumiu! E isso me irrita infantilmente.

- A gente tem 25 anos, mas quando leva um fora se sente com 8 anos quando o menino que a gente gosta nos nega um biscoito.

Sexta-feira (23:00)
Escreveu:
"Quantas horas serão necessárias para te tirar da minha mente, homem?
Quantos banhos serão precisos para tirar o teu cheiro que insiste em ficar impregnado dentro de mim?
Quantas noites catárticas permeadas de sonhos, gozo e gemidos serão suficientes para te arrancar dos meus devaneios?
A minha respiração e pulsar seguem entranhados de você, desde que você entrou em mim e me atravessou, me comeu e, sim, me engoliu.
Agora sigo aqui fazendo parte de você,  contigo gritando dentro de mim."

Sábado (08:00)
Que homem de merda.
Que angústia de merda.
Mas essa dor ao menos valeu um texto. 

Segunda-feira(19:00)

- Oi, vamos se ver? 
- Oi ... vamos.
- Chego na sua casa em 15 minutos.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

gaudiu

Eu gozo é por vocês.
Dentro de vocês.
Com vocês

Repleta do desejo que pulsa dentro de mim.
Em cada suor derramado
Em cada gota lambida
Com a vida banhada por gozo.
Com o corpo permeado de desejo.

Eu quero ser é parte da refeição matinal.
Ser comida todo dia.
Com a força da delicadeza do desejo
Que emana
Que pulsa
Goteja.

por mim
dentro de mim
em vocês.

domingo, 2 de abril de 2017

queda (2)

Hey you,

- Saia de dentro de mim.
- Nunca estive.

Com isso, percebeu-se do fim. Uma vida arraigada no não existir. 

A negação da soma, sempre foram divididos.

"juntos permanecemos, divididos caímos"

Juntos nos construímos com planos impossíveis.
Juntos criamos devaneios.
Juntos crescemos
Divididos nos magoamos.
Divididos nos contradizemos
Divididos nos separamos.

Divididos de mágoa, de raiva, de amor. 

Juntos de lágrimas.
De amor.
Amor?

A carne permanecia unida, os corpos teimavam em juntar-se. 

Não conseguiam separar.
 Quando juntos, clamavam pelo suor um do outro.

- Você pode amar outros, mas trepar, só trepa comigo.
- Seu filho da puta, me fode.

E assim, só assim, conseguem permanecer unidos.
Mas após o gozo .... porque o gozo sempre chega?
Para lembrar da divisão. 

Lembrar que a permanência nunca ocorre
. No fim, sempre a queda.

a queda
a divisão
o adeus

domingo, 26 de março de 2017

ao universo

Eu sinto teu cheiro impregnado
dentro de mim
na minha cabeça
no meu corpo
na minha alma
no meu coração.

Dos caminhos tortuosos e mapas que rasgamos. Traçamos o nosso caminho.
Das lágrimas de adeuses, dos laços que criamos, dos amores que cultivamos. Nos encontramos.
Da vida que insiste em levar os afetos, em esfriar os amores, em nos obrigar a renascer. Nos absorvemos.
Do universo que as vezes nos coloca em sintonia com a aleatoriedade. Estamos aqui.
Do suor, do gozo, da língua, da pele, do amor, de sermos um. Ficou o gosto, afeto, vontade.
serendipity

"Eu queria mais de ti, do teu gosto, do teu toque, do teu suor, do teu cheiro. Desde que eu te encontrei eu canto mais, rio mais, entendo mais. Eu quero você, mas não pra mim. Eu quero ser de ti, mas não ser tua. Eu quero que a leveza do vento nos toque os cabelos, que as ondas do mar sejam pano de fundo pro nosso riso. Eu quero que a vida te seja leve, nos seja leve. E que o universo nos permita compartilhar um pouco disso. E não precisamos da vida toda, nem de tudo um do outro. Mas o suficiente pra nossa alma ficar impregnada de sentidos, símbolos e significados de experiências, de companheirismo e sim, de amor."

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

o abusivo

"Til you're standing in my shoes
I don't wanna hear a thing from you"

ele nunca ousou.



O homem que não entrava no mar. O prescrutava com afinco, analisava cada detalhe com o seus olhos atentos de julgamento. Com o budismo limitador de liberdade, buscava o caminho do meio que passava por cima dos anseios dela. Amava o seu poder. O poder que a palavra fornecia, capaz de cercear, matar, fazer sofrer, definhar.
Do poder abusava.
O abusivo.

Jogava com a culpa dela, com o prazer de ver o escorpião arrancar sua própria vida despejando seu veneno ao nada.

"Você nunca será nada melhor, do que ter o prazer de ser minha."

"A sua vida foi dada por mim."

Ela não via sentido. Obedecia. Acreditava. Enganada pela culpa do abuso.
Um a roubou a coragem, o outro a alma.
Pulava conforme a vida a exigia, corria conforme a existência a obrigava. Respirava nos tons que ele mandava. Comia no formato que ele a coagia. Uma vida que tinha como base a coerção. O medo.

"Eu já morri, eu já sofri, eu apanhei, abusaram de mim. Tanto. Mais do que um corpo de um metro e sessenta e três poderia permitir, mais do que um coração fraco, um estômago gasto e um sistema respiratório defeituoso poderia suportar. Os cortes eu levarei sempre comigo. Metafóricos. Físicos. Escondidos. Você nunca me viu. Você enxergou o que queria. Você nunca viu os cortes que a ansiedade da culpa me fizeram causar em mim mesma. Na minha pele. Na minha nojenta pele. Que suportou aqueles toques horríveis, que suportou a culpa, o suor, o medo ... que suportou você. Vocês. Os abusadores."



o abuso.

Depois de ter quase morrido tantas vezes, resolve surgir.
E de fato morreu. Quando exposta ao toque indesejado, a lambida asquerosa, ao calor não cedido, mas sim roubado.
Ali roubaram sua alma. Mataram sua Vida. A coragem. A coragem sagitariana que tanto amava.
Tudo que mais prezara lhe foi roubado.
O abuso.
Da confiança, do afeto, de si.
Provocador de culpa, uma culpa tão injusta. Uma dor injusta. Mas, afinal, quais dores são justas? A vida roda, machuca, sensibiliza, nos culpa e só nos resta viver. Vivemos?
 Ela se arrastava. Lamentava. Faltava ar. Ansiedade. Medo.

Da coragem que saltava.
Ao medo que não sai do chão.


"se eu soubesse como dói a vida, essa dor tão doída não me doía assim."

dói.