de natal

"Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte "

poetinha

domingo, 13 de maio de 2018

mas o tempo é acaso precioso

Quando o homem se deita sobre o útero dela, ela é preenchida, cada ato de amor, ter o homem dentro dela, um ato de nascer e renascer, carregar uma criança e carregar um homem. Toda vez que o homem deita em seu útero se renova no desejo de agir, de ser. Mas para uma mulher, o climax não é o nascimento, mas o momento em que o homem descansa dentro dela.

Anaïs Nin



O tempo nos enrosca em voltas imensas e nos coloca em acasos até bonitos. Após anos colegiais, encontraram-se no indecoroso benfica. Bar verde, cigarros acesos, cervejas derramadas, decote mostrando ao que veio. Já saiu de casa com a calcinha de renda, devidamente cuidada, precisamente molhada. Esperava. Algo ou nada. Estava lá. Como poucas vezes: disposta. 

Disposição é artigo raro em mundo dado a pequenos e voláteis encontros. A intensidade brotou com o enroscar de línguas, suspiros em gemidos, mãos apertando o corpo, desejo gritando vontade. Vontade gritando precisão. Precisão que suplica audácia e os colocou nus em frente ao outro em menos de uma hora. 

O encaixe as vezes surge com precisão de inicio. Evento raro. Mas, ocasionalmente, o estar dentro surge como lar. Recipiente que pinga por mais, geme por mais, treme e pulsa por um incessante mais. 

O gozo surgiu como um ápice de súplica por uma eternidade do entrar e sair. 

De quatro encontrou pose. Posição. Lugar de falo. Lugar de puta. Lugar de mulher. Ao rebolar sentiu-se santa. Sentiu-se dona. Percebeu-se domada. Lugar de centro, lugar de fala, lugar de falo.

O gozo. Mais uma vez como vontade incessante.

Sentada encontrou poder. Colocada por cima. Em cima do que queria. "Eu sou uma mulher e hoje eu só quero trepar." É surra de buceta que chama? Surra nada, era carinho, era desordem, era organização. Era vontade de sentir dentro e saber que o papel de colocar dentro era seu. Brincava poderosamente de tirar, botar, sentar, rebolar, colocar, arranhar, beijar, chupar.

O gozo. Cansado e permeado de realização. Realização?! 

Ainda molhada de vontade que pingava aos dedos. Ele posto de desejo que penetrava a alma. Os olhos colocados de deleite. Enseados de voracidade. Mais uma vez dentro, dentro de si. Já nem sabia mais como seria não estar com algo dentro de si, depois de horas de completude entre as pernas. Questionou o tempo ao ver o dia amanhecer em forma de lembrança de uma voraz e loquaz realidade que a coloca em frente ao inevitável fim do gozo.

"Essa noite vai me render texto" - despediu-se. 

O fim que surge nos coloca em frente ao inevitável adeus, mas as vezes este consegue fomentar a poesia.

princesa do meu lugar

Em uma garrafa de cerveja e um cigarro encontrei deus,
Com a percepção do infinito e da grande imensidão
Me alegro.
De tanto mundo, deve haver sim um lugar que me caiba.

Com os desencontros, observou o encontro de si, encontro de águas, de muitas, de indesejados sentimentos que são seus (mas nem sempre). Após o encontro com vários homens que recusavam-se entrar no mar, resolveu que o mergulho haveria de ser com base na solitude. Sozinha iria ao fundo, sozinha retornaria das águas.Renasceria. Como uma madona azul e triunfante, que sabe das incomodas areias que traz nos  pés, das algas penosas que carrega. Modorrenta de si mesma, exausta. Mas retorna, atravessada de suas dores. Carrega consigo o prazer de ser sua. De não precisar caber em lugar nenhum, ela dona de si mesma. Pra ela, basta caber em si.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Ansiedade

O peso de ter de ser eu mesma durante o resto da vida é duro e desejável de abdicação.

Junto com as nuvens cinzas a ansiedade recai sobre meu corpo e faz dele moradia. Com uma triste agonia silenciosa. Que se junta com a vontade de automutilação. Vontade de arrancar de mim a dor e o peso de ter de encarar a vida sendo exatamente o que consegui ser. Uma dolorida. Pecadora. Abusada. Incapaz de ser amada e irremediavelmente sozinha.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Uma carta para 2015

Querida Erika,

O mundo vai girar e se desfazer por entre teus pés e visão. Tanta coisa mudou. O medo continua te sendo companhia durante a maior parte do tempo. Mas te olhando daqui, nessa casa grande, marrom e cheia de vento, eu consigo lembrar que você, em muitas vezes, teve certeza que não conseguiria. Mas você conseguiu. As mulheres que você um dia viu como disputa, te foram solo, adubo e sol. Elas te mudaram. Mas não foi fácil. Você pensou que morreria quando teimou em enfiar as coisas naquelas bolsas improvisadas, e sem dinheiro nem comida ... apenas ir. E depois ... o quanto foi terrível, ouvir que o esforço pra te amar é grande e ainda assim improdutivo. O amor te bateu tantas, tantas vezes. O amor bate? A vida te bateu mais do que pensou aguentar. Mas você aguentou. O fundo do poço que tanto te acompanhou, tornou-te lar. Aprendeu a crescer em lugares inóspitos. Aprendeu a sofrer. Mascarar o medo. Você cresceu. E assim o mundo encolheu e ficou cada vez mais difícil encontrar um lugar que te caiba. Um abraço que amenize sua dor. Uma pessoa que saiba lidar com a sua força. Você precisou matar e destruir coisas demais, pessoas demais, sentimentos demais para poder ressurgir. "Parece uma fênix" - te dirão. A vida segue pesada, seu corpo sobrevive, mas adoecido. Mas a vida segue. Torta. Injusta. Dolorida. Mas dona de si. Emponderada do seu lugar. Hoje ninguém é capaz de te tirar o prazer que é poder simplesmente ser você. O preço é caro, mas nenhum preço é caro demais pra poder ser a mulher que você lutou, sangrou, morreu, ressurgiu, mas que hoje se tornou. E assim mesmo com tanta dor, ódio e pesos você vai aprendendo que até mesmo a mais dura rocha pode aprender a florescer.

sexta-feira, treze de abril de 2018.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O ser mulher


Vocês tentam com afinco me convencer que ser mulher é uma dádiva. Um dom de vida que me foi dado. Mas me desculpem, mas eu não vejo isso. Ser mulher é um peso que me jogaram sem eu ter pedido. Olhe, moço eu concordo que você entende de muita coisa, mas não tente me convencer que devo ser feliz por quem sou. Preste atenção, eu fui estuprada, abusada, humilhada e cotidianamente diminuída sob o argumento "mas você é mulher". Sinceramente, me desculpe mas isso não tem me parecido vantajoso. Crescer sobre a égide de ser diminuída simplesmente por ser quem sou. Por vestir um corpo que eu inclusive odeio. Não, não! Você nunca vai me convencer que isso é bom. Honestamente, até o fim eu vou gritar. Me deixem lamentar. Me deixem gritar. Porque nada disso me parece minimamente justo.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Dama da Noite, um conto de Caio Fernando Abreu

"Vocês me comem, mastigam, engolem ... as vezes até matam, mas não me devolvem nada.
Agora estou eu.
Mastigada - Despedaçada - Derramada
Sem saber bem quem eu sou. 
Muitas vezes sendo ninguém."




Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?

Nada, você não entende nada. Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto: luz, também nunca tenho nada pra fazer - o quê? Umas rendas aí. É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta, trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Se eu tô tesuda e você anda duro e eu precisar de cacete, compro o teu, pago o teu. Quanto custa? Me dil que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E pago foda também, se for preciso.

Pego, claro que eu pego. Pego sim, pego depois. É grande? Gosto de grande, bem grosso. Agora não. Agora quercì falar na roda. Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado. Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem cabelo arrepiadinho, inclusive nós. Sabe que, se há uns dei anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você, eu não ia acreditar? Preto absorve vibração negativa, eu pensava. O contrário de branco, branco reflete. Mas acho que essa moçada tá mais a fim mesmo é de absorver, chupar até o fundo do mal - hein? Depois, até posso. Tem problema, não. Mas não é disso que estou falando agora, meu bem.

Você não gosta? Ah, não me diga, garotinho. Mas se eu pago a bebida, eu digo o que eu quiser, entendeu? Eu digo meu-bem assim desse jeito, do jeito que eu bem entender. Digo e repito: meu-bem-meu-bem-meu-bem. Pego no seu queixo a hora que eu quiser também, enquanto digo e repito e redigo meu-bem-meu-bem. Queixo furadinho, hein? Já observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Pelo amor de Deus, não me venha com aquela história tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Boiçucanga, tive que dormir na mesma cama com um carinha que. Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Ascendente Câncer, eu sei: cara de lua, bunda gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.

Levanta não, te pago outra vodca, quer? Só pra deixar eu falar mais na roda. Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.

A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.

Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê. Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente. Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho nojo dela - você?

Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho. pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas. Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados. Õ boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado.

Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem comecei a falar na morte...

Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes. Eu sou curtida, meu bem. A gente lê na sua cara que nunca. Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho verde me olhando assim que nem eu fosse a Isabella Rossellini levando porrada e gostando e pedindo eat me eat me, escrota e deslumbrante. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do veneno. O que que você vai contar amanhã na escola, hein? Sim, porque vocé ainda deve ir à escola, de lancheira e tudo. Já sei: conheci uma mina meio coroa, porra-louca demais. Cretino, cretino, pobre anjo cretino do fim de todas as coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto. Um caralhinho gostoso, sem marca nenhuma. Todo rosadinho. E burro. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de pau duro, uma tábua, tem tesão por tudo, até por fechadura. Quantas por dia? Muito bem, parabéns: você tá na idade. Mas anota aí pro teu futuro cair na real: essa sede, ninguém mata. Sexo é na cabeça: você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu? Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é sozinho, boy.

Eu, cansei. Já não estou mais na idade. Quantos? Ah, você não vai acreditar, esquece. O que importa é que você entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. você não marca. Eu sei que fico em você, eu sei que marco você. Marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo, quando você estiver rodando na roda, vai lembrar que, uma noite. sentou ao lado de uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo, na solidão, na morte. Feia, tão feia a morte, boy. A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um pouco, mas isso nem é o pior. Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e o corpo fica assim que nem uma cadeira. Uma mesa, um cinzeiro, um prato vazio. Uma coisa sem nada dentro. Que nem casca de amendoim jogada na areia, é assim que a gente fica quando morre, viu, boy? E você, já descobriu que um dia também vai morrer?

Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as coisas. Tá tudo bem, é assim que as coisas são: ca-pi-ta-lis-tas, em letras góticas de neon. Mulher pirada e meio coroa que nem eu tem mais é que ser roubada por um garotinho ïmbecil e tesudinho como você. Só pra deixar de ser burra caindo outra vez nessa armadilha de sexo.

Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.

Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

wolf

Concordemos, você poucas vezes é capaz de entender qualquer coisa sobre o que penso e  sinto. E essa vai ser só mais uma delas. Você não vai entender nada disso.

A memória humana é repleta de supressões autopreservatórias.
O abuso vem por caminhos multilaterais, assim como a dor, a morte e as pequenas coisas que podem suscitar a memória.
No meu caso, nem tão pequenas assim.
Duas mulheres.
Grandes.
Eu diria fortes e quem sabe admiráveis.
Duas pedras que destamparam a lembrança.

Da pior coisa da minha vida. Saibam, vocês me conhecem, eu perscruto e rodopio com o drama como bons velhos amigos, que somos. Mas as vezes os melhores amigos nos traem, não diriam nos traem, mas não fazem jus às palavras que querem ser ditas. E, meus amigos, essas palavras querem e precisam ser ditas há um bom tempo. Então pedirei licença ao drama e direi com palavras claras:

B. A. de S. quase me matou.

Vocês percebam, eu ainda sim devo parecer dramática.
Como eu disse, o abuso vem por caminhos diversos. Como diria você, o abuso psicológico é subjetivo e tudo isso parece recalque. Honestamente? Como você adora falar, fodam-se, seus merdinhas.
Nenhuma dor diminui isso. Olhe eu tentei. Eu magoei pessoas, fui escrota com algumas.
L./S me desculpem.
Talvez a culpa diminuísse algo.
Nada
Com outras deveria ter sido,
M.você foi um idiota.
Talvez a redenção me fornecesse algo.
Rien

Mas o maior machucado veio de mim, por mim.
Sabe a minha memória? Apareceu.
Logo agora, a filha da puta da memória apareceu.
E eu lembrei de você, B.
Me machucando, você me comeu, se lambuzou, me fez sofrer e me viu chorando. Por favor, não finja que não. Você me viu chorar. No seu gozo disse "bem, acabei aqui", se levantou. Foi embora. Eu fiquei só, tal qual um depósito de qualquer coisa. Irrespondivelmente, só.
Eu tinha esquecido disso.
Eu daria a minha vida por continuar a ter esquecido disso.
Eu sei, muito drama.
Acredite, estou cansada. Você deve se arrepender bastante daquele match. Daquele encontro apressado. Logo você, que odeia drama. Nem de filmes você gosta. E de repente, erika rocha. O drama. A vítima. Pobre coitada.
Eu entendo se você quiser pular disso. Talvez qualquer um pulasse fora.

Mas, por favor, não me veja como coitada. Eu sou bem forte. E sei muito bem o meu lugar aqui. Como lutadora. E não pense que eu não lutaria contra você, por você e sob você. Eu cortaria você pra sobreviver. E veja bem, olhe o que eu já passei, eu não morreria por isso. Convenhamos, se eu não morri até agora, né?

Mas, na real? Estou cansada. Viver tem sido um exercício exaustivo e nesses últimos dois anos a morte me foi bem vinda muitas vezes. Mas fugi dela com eficácia em todas elas. A loucura me abraçou como nunca. E até que gostei dela.

Há aproximadamente quatro anos ouvi um "eu te amo" romântico de alguém.
Será que mereço ser amada? O amor deve escolher pessoas com histórias mais bonitas. Então eu não te julgo por não me amar, acho compreensível.

Olhem, eu não sei qual o propósito do universo ao me colocar nessa terra.
mas isso parece uma brincadeira malvada
malvada demais